Castelo de Paderne, Albufeira: a fortaleza de terra da bandeira portuguesa
Não se chega ao Castelo de Paderne por acaso. Este castelo medieval do Algarve ergue-se numa colina despida, numa curva do rio Quarteira, a doze quilómetros para o interior a partir dos chapéus de sol de Albufeira, e o último troço faz-se por um caminho de terra entre figueiras e alfarrobeiras. Lá em cima, nada de um castelo de postal cheio de torreões e bandeiras: uma fortaleza com oitocentos anos construída em terra compactada, meio fundida na encosta, e um dos sete castelos representados na bandeira portuguesa.
O que é o Castelo de Paderne? Uma fortaleza almóada de terra, no Algarve
O que primeiro surpreende o visitante é o material das muralhas. Paderne não é um castelo de pedra aparelhada: foi erguido em taipa, uma mistura compactada de terra, cal, giz e cascalho colocada entre cofragens de madeira e deixada a endurecer como betão. Parece frágil. Não é. Estas muralhas de terra têm quase dois metros de espessura, assentam sobre uma sólida base de pedra e atravessaram oito séculos de sol algarvio, chuvas de inverno e pelo menos um terramoto catastrófico.
A fortaleza pertence ao último capítulo da presença islâmica no Algarve. Perante os exércitos cristãos que avançavam desde o norte, os Almóadas deixaram de apostar apenas nas grandes cidades fortificadas e criaram uma segunda linha de fortificações rurais de média dimensão pelo interior. Paderne, entre Silves e Loulé, vigiava uma rota que ligava o interior à costa. Atrás da muralha, não havia uma guarnição, mas uma pequena aldeia agrícola fortificada: ruelas estreitas, casas com pátio central, cisternas e uma rede de drenagem que conduzia as águas residuais e pluviais para fora do recinto.
Hoje, o recinto forma um trapézio com cerca de um hectare, a céu aberto, com as ruínas de uma capela junto à muralha sul e uma única torre ainda de pé a guardar a entrada. Mais abaixo, o vale integra a Rede Natura 2000, coberto de olivais, alfarrobeiras e mato mediterrânico; um trilho sobe até às muralhas a partir da velha ponte romana que atravessa o rio.
A história do Castelo de Paderne em onze datas-chave
Romanos, berberes, cruzados, monges-soldados e, por fim, arqueólogos. Poucas colinas do Algarve mudaram de mãos tantas vezes, e a história do Castelo de Paderne lê-se como um resumo do sul de Portugal.
Roma ocupa a colina
Os Romanos ocupam um castro lusitano preexistente e transformam-no num posto militar e, mais tarde, num centro administrativo chamado Paderna. A razão encontra-se mais abaixo: a Via Lusitanorum atravessava aqui mesmo o rio Quarteira.
A chegada dos muçulmanos
O domínio romano cai nas mãos das tropas muçulmanas durante a conquista da Península. Durante os cinco séculos seguintes, a colina pertence ao al-Andalus, e os campos em redor são mais cultivados do que fortificados.
Os Almóadas constroem o castelo
As incursões cristãs esvaziam os campos muçulmanos: os Almóadas lançam então um vasto programa de fortificação no Algarve — Paderne, Silves, Loulé, Faro. A fortaleza de taipa que ainda hoje se mantém de pé é erguida como refúgio para as famílias camponesas do Barrocal.
D. Sancho I e os cruzados
Depois do cerco de Silves, realizado com a ajuda de cruzados vindos do norte da Europa a caminho da Terra Santa, Paderne rende-se ao rei D. Sancho I. Pela primeira vez, a bandeira portuguesa é hasteada na colina.
Retomado dois anos depois
O califa Abu Yusuf Yaqub al-Mansur volta a avançar pelo Algarve e recupera o castelo e as suas terras. A vitória durará pouco mais de meio século.
O último cerco
D. Paio Peres Correia e os cavaleiros da Ordem de Santiago tomam Paderne para a Coroa portuguesa durante o reinado de D. Afonso III. O desfecho é brutal: os habitantes muçulmanos do recinto são massacrados. Pouco depois é erguida uma capela, muito provavelmente sobre os vestígios da mesquita.
Entregue aos monges-soldados
Depois de uma série de reparações, o rei D. Dinis entrega o castelo a D. Lourenço Anes, mestre da Ordem de Avis, na esperança de o transformar num verdadeiro centro militar e económico. O projeto nunca chegará verdadeiramente a concretizar-se.
A paróquia muda-se
A capela de Nossa Senhora do Castelo servia de igreja paroquial para o vale. Quando é construída uma nova igreja mais abaixo, na aldeia de Paderne, os fiéis descem a colina e deixam de subir até ao castelo.
O terramoto
O grande terramoto que devastou Lisboa atinge duramente o Algarve. Já fragilizadas por séculos de abandono, as muralhas de Paderne sofrem graves danos: uma boa parte do que hoje falta desapareceu nessa manhã.
O abandono definitivo
Isolado e em ruínas, o castelo é oficialmente abandonado e a sua ermida, dedicada a Nossa Senhora da Assunção, é desativada. Durante 140 anos, a colina fica entregue às cabras, às flores silvestres e ao vento.
Salvo pelos arqueólogos
O instituto nacional do património adquire o monumento e os terrenos, realiza um levantamento em 3D e inicia um programa de restauro das muralhas de taipa e das ruínas da capela. As escavações revelam casas, ruelas, canalizações, cisternas e uma rede de saneamento: o traçado de toda uma aldeia medieval.
Cinco curiosidades do Castelo de Paderne a não perder
Paderne recompensa quem sabe onde olhar. As melhores histórias deste castelo do Algarve estão à vista, escondidas em pormenores que uma simples passagem pela entrada deixa escapar.
Está representado na bandeira portuguesa
Olhe para o escudo no centro da bandeira portuguesa e conte os pequenos castelos amarelos que o rodeiam: são sete. Representam as fortalezas tomadas aos muçulmanos durante a Reconquista, e Paderne é identificado como um deles. É uma ideia curiosa numa encosta silenciosa onde provavelmente será o único visitante: esta ruína está representada em cada passaporte português, em cada camisola e em cada edifício oficial do país.
Paredes de terra disfarçadas de pedra
A torre que ainda está de pé é um dos melhores locais de Portugal para observar de perto a taipa militar muçulmana. Ao aproximar-se da face exterior, ainda poderá distinguir ténues linhas de cal pintadas sobre a terra: falsas juntas, traçadas deliberadamente para fazer quem se aproximava acreditar que a torre tinha sido construída em pedra aparelhada.
Propaganda feita com cal: barata, rápida e convincente à distância. Sob a pintura, as muralhas atingem 1,8 metros de espessura e apresentam, a intervalos regulares, aberturas verticais para permitir o escoamento da água da chuva, em vez de encharcar a terra por dentro.
Uma entrada impossível de atacar de frente
A entrada não se abre diretamente para o exterior. Faz uma curva em ângulo reto junto à muralha principal, obrigando o atacante a abrandar, a desfazer a formação e a expor o flanco à torre que o domina antes de chegar à porta. Ao atravessá-la hoje, segue um percurso concebido para o transformar num alvo fácil: uma entrada em cotovelo de manual, e a razão pela qual o lado leste, o menos protegido naturalmente, era também o mais bem defendido.
Duas cisternas, duas civilizações
No interior das muralhas, entre os contornos baixos das casas, subsistem duas cisternas: uma da aldeia islâmica e outra da povoação cristã que lhe sucedeu. É a prova mais clara de que a colina foi reutilizada em vez de reconstruída: os novos ocupantes instalaram-se no traçado antigo e adaptaram-no.
As escavações também revelaram canalizações, uma rede de abastecimento de água e um sistema de saneamento funcional. Por outras palavras: uma pequena povoação camponesa no alto da colina tinha, no século XII, uma drenagem melhor do que muitas cidades europeias seiscentos anos mais tarde.
A velha ponte e o trilho do vale
Mais abaixo do castelo, uma ponte em arco — desde sempre conhecida como ponte romana — atravessa o Quarteira no traçado da antiga via que a fortaleza tinha por missão vigiar. Um trilho sinalizado liga-a às muralhas através de olivais, figueiras e alfarrobeiras, tudo no coração de uma zona protegida da Rede Natura 2000.
Venha ao fim da tarde: todo o vale ganha então a cor das muralhas. É uma das melhores fotografias do interior de Albufeira, e não há uma bilheteira à vista.
Visitar o Castelo de Paderne: como chegar a partir de Albufeira
O Castelo de Paderne é um monumento ao ar livre, de acesso livre, fácil de incluir numa manhã fora de Albufeira. Tudo o que precisa de saber antes de partir, em quatro pontos.
Acesso
- A 12 km a norte de Albufeira, perto da aldeia de Paderne.
- Morada: Cerro do Castelo, 8200 Paderne.
- O último troço é um caminho não asfaltado.
- Também é acessível a pé a partir da velha ponte, no vale.
A ver
- A torre de taipa e as suas falsas juntas pintadas.
- A entrada em cotovelo.
- As ruínas da capela de Nossa Senhora do Castelo.
- As duas cisternas e o traçado das casas medievais.
- A vista sobre o vale do Quarteira.
A saber
- Não há café nem loja e existe muito pouca sombra na colina.
- Terreno irregular e pedras instáveis: use calçado fechado.
- As tardes em pleno verão são muito quentes lá em cima.
- Mantenha-se afastado da borda das muralhas e da taipa degradada.
Informações práticas
- Acesso: ruínas ao ar livre, visita livre.
- Visitas guiadas: possíveis mediante reserva.
- Melhor luz: de manhã cedo ou ao fim da tarde.
- Nas proximidades: a aldeia de Paderne, Alte e Benafim.
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Caminhos de terra, aldeias no alto e o castelo sobre a sua crista: o interior do Algarve descobre-se melhor percorrendo os velhos caminhos.
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